Como o novo livro será lançado no dia 12 de agosto, às 19h, no Museu de Arte Murilo Mendes, deixo para os amigos do blog, um aperitivo do novo romance. Eis, então, um fragmento do romance "Um livro, um filho, uma árvore":
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Não gostava de tomar cerveja naquela esquina. Foi-se a época em que aquilo era um programa aprazível. Aquele clima de sentar, ler o jornal, tomar um chopp e botar a conversa em dia, tornou-se algo muitas vezes estressante. O chopp e o petisco demoravam a vir. Quando chegavam, invariavelmente, o pedido saía errado e o garçom gastava mais tempo ainda para desfazer os equívocos. Sem contar a quantidade de gente que passava por ali. Alguns chegavam até a encostar suas partes pudentas nas costas e nos braços de quem estava sentado. Realmente, odiável.
Mas se havia uma coisa que muito me revoltava naquela esquina, era o sem número de pedintes que apareciam por ali. Vindo de todos os lados e com todos os dilemas, patologias, deformidades e aberrações possíveis à natureza humana, aquilo não era, definitivamente, um lugar para se relaxar. Se divertir, talvez. Principalmente para quem gostava de ver o sofrimento humano sendo exposto e vendido por míseros trocados.
Talvez eu tivesse me tornado um chato e não relevasse mais um monte de coisas que aconteciam no mundo. Talvez eu estivesse me tornando um velho. Estava chegando aos 40 anos e já tinha alguns fios brancos na cabeça. Outro dia, apareceu um até no cabelo do saco. Talvez fosse isso. Brandãozinho interrompeu os meus pensamentos.
“Viu que o Flamengo ganhou ontem? Já somos o oitavo da tabela...”
Brandão era rubro-negro e lia um suprimento esportivo do jornal.
“Grande bosta.”
Brandão aproveitou para me provocar.
“Melhor que aquela merda do Botafogo, que está quase na zona do rebaixamento.”
“Não encha o saco.”
“Não encha o saco.”
Não tinha mais paciência para discussões. Já havia perdido muito tempo discutindo religião, política, futebol, sobre quem era o melhor guitarrista do mundo, a salvação das baleias e cansei. Passei a adotar a tática de ofender na primeira provocação e cortar na segunda, como acabara de fazer com Brandão. Nada como viver sem rivalismos tolos.
Puxei conversa com Brandão. A mulher ainda me afligia muito.
“E aquela mulher? Como vamos encontrá-la agora?”
O meu amigo de pernas curtas acenou para o garçom e pediu mais dois chopps. Depois, voltou-se para mim.
“Você está muito ansioso. Nem conversamos com todos os garçons daquele bar que ela frequentava. Vamos tomar mais um chopp e relaxar um pouco.”
Brandãozinho terminava de dizer aquela frase e surgiu o terceiro pedinte do dia. Ele chegou depois da senhora que trazia uma filha com uma doença que eu não entendi o nome e de um mudo que queria o dinheiro de uma passagem de volta para sua cidade.
O rapaz, aparentando uns 32 anos, cheirava a álcool e carregava um sapato muito roto em suas mãos. Ele foi direto ao assunto.
“Quero dinheiro para tomar muita cachaça.”
“Vai caçar sapo!”, reclamou Brandão.
“Vai caçar sapo!”, reclamou Brandão.
Apesar de não ter gostado do intruso, dei corda.
“E qual é o seu problema? Qual vai ser a desculpa para ganhar o dinheiro?”
“Eu tenho seis dedos nos dois pés. Dizem que se chama polidactilia.”
E estendeu os pés sujos, levantando um de cada vez na nossa cara e estendendo o pé de sapato para que depositássemos o “cachê” pelo número protagonizado por ele.
“E tem até unha no sexto dedo, viu!”
“Vai trabalhar, seu vagabundo”, gritou Brandão.
Acalmei Brandãozinho. Na verdade, nunca vi um indigente tão inusitado quanto aquele homem. Eu, que nunca dei esmola a ninguém, muito menos naquela esquina, fui generoso e dei uma nota de 20 reais para o homem.
“Vá e gaste tudo em cachaça.”
O homem logo se perdeu na multidão de pessoas.
“Se eu quebrar os meus dentes da frente, você me paga quanto, seu idiota?!”, reclamou o Brandão.
“Vai se fuder.”
“Por que esse sentimentalismo tolo, agora?”
“Não enche, porra.”
Eu nunca discutia. Muito menos com o meu amigo de pernas curtas. Tomamos mais duas canecas de chopp e pedimos a conta. Quando fomos pagar, uma mão tocou no meu ombro.
“Lembra de mim?!”