quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Aperitivo do novo romance

Como o novo livro será lançado no dia 12 de agosto, às 19h, no Museu de Arte Murilo Mendes, deixo para os amigos do blog, um aperitivo do novo romance. Eis, então, um fragmento do romance "Um livro, um filho, uma árvore":


...


Não gostava de tomar cerveja naquela esquina. Foi-se a época em que aquilo era um programa aprazível. Aquele clima de sentar, ler o jornal, tomar um chopp e botar a conversa em dia, tornou-se algo muitas vezes estressante. O chopp e o petisco demoravam a vir. Quando chegavam, invariavelmente, o pedido saía errado e o garçom gastava mais tempo ainda para desfazer os equívocos. Sem contar a quantidade de gente que passava por ali. Alguns chegavam até a encostar suas partes pudentas nas costas e nos braços de quem estava sentado. Realmente, odiável.


Mas se havia uma coisa que muito me revoltava naquela esquina, era o sem número de pedintes que apareciam por ali. Vindo de todos os lados e com todos os dilemas, patologias, deformidades e aberrações possíveis à natureza humana, aquilo não era, definitivamente, um lugar para se relaxar. Se divertir, talvez. Principalmente para quem gostava de ver o sofrimento humano sendo exposto e vendido por míseros trocados.


Talvez eu tivesse me tornado um chato e não relevasse mais um monte de coisas que aconteciam no mundo. Talvez eu estivesse me tornando um velho. Estava chegando aos 40 anos e já tinha alguns fios brancos na cabeça. Outro dia, apareceu um até no cabelo do saco. Talvez fosse isso. Brandãozinho interrompeu os meus pensamentos.


“Viu que o Flamengo ganhou ontem? Já somos o oitavo da tabela...”

Brandão era rubro-negro e lia um suprimento esportivo do jornal.

“Grande bosta.”

Brandão aproveitou para me provocar.

“Melhor que aquela merda do Botafogo, que está quase na zona do rebaixamento.”
“Não encha o saco.”

Não tinha mais paciência para discussões. Já havia perdido muito tempo discutindo religião, política, futebol, sobre quem era o melhor guitarrista do mundo, a salvação das baleias e cansei. Passei a adotar a tática de ofender na primeira provocação e cortar na segunda, como acabara de fazer com Brandão. Nada como viver sem rivalismos tolos.

Puxei conversa com Brandão. A mulher ainda me afligia muito.

“E aquela mulher? Como vamos encontrá-la agora?”

O meu amigo de pernas curtas acenou para o garçom e pediu mais dois chopps. Depois, voltou-se para mim.

“Você está muito ansioso. Nem conversamos com todos os garçons daquele bar que ela frequentava. Vamos tomar mais um chopp e relaxar um pouco.”

Brandãozinho terminava de dizer aquela frase e surgiu o terceiro pedinte do dia. Ele chegou depois da senhora que trazia uma filha com uma doença que eu não entendi o nome e de um mudo que queria o dinheiro de uma passagem de volta para sua cidade.

O rapaz, aparentando uns 32 anos, cheirava a álcool e carregava um sapato muito roto em suas mãos. Ele foi direto ao assunto.

“Quero dinheiro para tomar muita cachaça.”
“Vai caçar sapo!”, reclamou Brandão.


Apesar de não ter gostado do intruso, dei corda.

“E qual é o seu problema? Qual vai ser a desculpa para ganhar o dinheiro?”

“Eu tenho seis dedos nos dois pés. Dizem que se chama polidactilia.”

E estendeu os pés sujos, levantando um de cada vez na nossa cara e estendendo o pé de sapato para que depositássemos o “cachê” pelo número protagonizado por ele.

“E tem até unha no sexto dedo, viu!”

“Vai trabalhar, seu vagabundo”, gritou Brandão.

Acalmei Brandãozinho. Na verdade, nunca vi um indigente tão inusitado quanto aquele homem. Eu, que nunca dei esmola a ninguém, muito menos naquela esquina, fui generoso e dei uma nota de 20 reais para o homem.

“Vá e gaste tudo em cachaça.”

O homem logo se perdeu na multidão de pessoas.

“Se eu quebrar os meus dentes da frente, você me paga quanto, seu idiota?!”, reclamou o Brandão.

“Vai se fuder.”

“Por que esse sentimentalismo tolo, agora?”

“Não enche, porra.”

Eu nunca discutia. Muito menos com o meu amigo de pernas curtas. Tomamos mais duas canecas de chopp e pedimos a conta. Quando fomos pagar, uma mão tocou no meu ombro.

“Lembra de mim?!”

sábado, 2 de julho de 2011

Um "tapa" no layout

Caro companheiro de leitura,

o cabeçalho mudou, a cor do texto e até a foto de apresentação. Quem for mais observador, verá que tem até uma capa a mais aí do lado direito. Sim, novo livro! Enquanto a obra vai pra gráfica, nas próximas semanas colocarei fragmentos do romance, "Um livro, um filho, uma árvore", que em breve será lançado, com notícias atualizadas por aqui.

Portanto, faça o que diz aquela canção que o Emílio Santiago cantava em uma das edições da série, "Aquarela do Brasil": "Senta, se acomoda, à vontade, tá em casa, tome um copo..."

Saudações!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Pistas falsas

Como não lembrar daquela tarde de setembro, quando entrei no correio com minha inscrição do vestibular para o curso de Comunicação Social. Muitas idéias e aspirações fervilhavam na cabeça. Um mundo de possibilidades oferecido pela universidade. Pensava em rádios, tevês, jornais e na nebulosa web, que reconfiguraria, na primeira década do milênio, a mídia que todos nós havíamos conhecidos durante o século XX.

Quase uma década se passou daquela data e me vejo, nesta semana, voltando pra casa com um carrapato pendurado em uma das dobras da minha barriga, que vale dizer, também não existia há nove anos. Era o fim de mais um dia de trabalho em uma das dezenas de fazendas e comunidades rurais no interior das Minas Gerais, às margens da BR-040, entre Juiz de Fora e Belo Horizonte. Enquanto matava o bicho, literalmente na unha, pensava em quantas pistas falsas a vida nos é capaz de oferecer. E ainda bem que ela faz isso por nós.

Aquele jovem cabeludo e cheio de espinhas na cara, amedrontado com o devir, jamais iria sair debaixo da cama, caso soubesse que os planos traçados milimetricamente furariam e o deixariam a ver navios. E que bom que isso aconteceu. Das adversidades, nasceram muitas necessidades. Das necessidades, um gosto maior por aquilo que é escolha. E por aí, a vida foi deslanchando. “Mesmo com carrapatos no corpo, Juliano?”, você deve estar se perguntando. “Claro que sim”, eu respondo. Os carrapatos fazem parte dessa grande aventura que é ser jornalista fora do eixo das grandes redações e das possibilidades que uma carreira profissional pode colocar em proposta.

O que me fascina são esses itens que nenhum guia do estudante irá contar para o aspirante a profissional. Até porque é impossível prever os fatos que vão além dos lugares-comuns de cada escolha. Isso vale não só para o jornalismo, como para qualquer outra profissão. Vale ainda mais, porque serve para a vida. Não há manuais que ensinam a viver. Nascer, crescer, reproduzir e morrer, estão lá no livro de biologia. O que não explicam mesmo é o significado de “as pessoas na sala de jantar tão preocupadas em nascer e morrer”.

Nenhum horóscopo passará perto da previsão do amanhã, que da promessa de escritórios modernos e computadores poderão se transformar em montanhas, pastagens, cavalos e bois. Mais ainda, devemos saudar ao destino ou o acaso, como preferir, pela dádiva da quebra de certos paradigmas: não ter que ser esteticamente bonito para ser bacana, não ter que ser rico para ser feliz e nem ter que seguir, de forma cartesiana, todos os desígnios do universo. Ele, destino, acaso ou qualquer outro nome, encarregar-se-á de fazer a parte da qual não somos capazes de fazer: deixar a vida nos levar, não é mesmo, Zeca Pagodinho?!

E para quem achava, como eu, que os carrapatos haviam sido aposentados nas peladas no campo do Miramar, em São Lourenço, no sul das Gerais, vejo que não importa o incremento do nível intelectual com capacitações e cursos de toda sorte. A vida nos oferece certas pistas, caminhos, sejam falsos ou não. E independem da nossa vontade e da nossa preparação. Cabe a nós, trabalhar em cima desta perspectiva. Sendo assim, carrapatos me mordam.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Cidade viva

Pois que a memória infantil era boa, bem me lembro dos meus cinco anos ainda hoje. Dentro da caixa preta cerebral, ainda encontro registros daquele tempo. Da ponte da estação, bem próxima de onde eu morava. Do campo do “Miramar”, onde jogava bola e bolava outras infinitas possibilidades de diversão. Das ruas, da venda do Napoleão... Quanta coisa na cabeça, mas quanta coisa mudou na minha cidade, esta da visão de criança. O que eu não percebia era que ela já mudava naquela época. Na verdade, apenas não me dava conta, por estar dentro do jogo, enquanto tudo o que estava a minha volta, crescia, diminuía, transformava ou virava pó. Inclusive, eu também mudava, embora não tivesse tal discernimento. Talvez, até hoje custe a acreditar que mudei tanto, quando rabisco do vértice ao ponto de chegada...

Estranho andar pelas ruas e verificar que aquele casario antigo deu lugar a um novo estacionamento, que cobra diárias, horas, frações e minutos. Logo a casa, que era tão significativa, embora bem menos lucrativa do que o entra e sai de veículos. E não foi só isso. Na verdade, se lançarmos mão de um flash back urbano dos últimos 20 anos, pouca coisa restou. Olhe por todos os lados e verá. Cadê aquela praça, onde foi parar aquela quadrinha de futsal? E a nossa marcação de amarelinha na vilinha? E a vilinha? Mandaram a vilinha para o espaço? – Até a casa da tia Marta mudou, já que ela finalmente conseguiu fazer a varanda e pintar a fachada. Deu outra cara, embora a pitangueira tenha sido derrubada neste intento. Perde e ganha, melhor ou pior – apenas questão de conceito. A questão é que tudo mudou.

E a mudança dentro da gente? Ou fora da gente? – Esta falta de cabelo, esta pança, esses primeiros fios brancos não estavam por aqui há duas décadas. E essa pouca tolerância às filas e aos dramas alheios também foram apurados com o tempo. A pele melhorou, a personalidade apurou e conheço mais atalhos. A vida põe e tira, trai e retrai. Talha e retalha, aplica e replica. Muda demais também.

Carrego a conformidade com as mudanças. Acho que é muito interessante essa vivacidade do novo, a abertura de possibilidades. O que me frita é não deter o “click” do momento em que acontece, o fato de não ver a demão de tinta, (des)caracterizar a casa da Tia Marta. As coisas acontecem na cidade e dentro de nós mesmos sem que possamos realmente opinar, já que, na maior parte das vezes, sabemos deste tipo de ocorrência. Atrelamos aos aparelhos tecnológicos, o nosso conceito de mudança e evolução, com seus computadores, telas de lcd, ipods e celulares, mas, não percebemos que esses processos estão mais internalizados do que se pensa em nossa vida cotidiana.

Dia desses, passei pelo velho bairro da Estação, com sua ponte, em reforma. A venda do Napoleão continua lá por perto, no mesmo lugar. O campo do Miramar foi cercado e as possibilidades lúdicas bem menores e representativas para as novas crianças do bairro. Nem eu mesmo detive o sentimento de outrora. E nem é pelo vigor das mudanças da cidade, mas, porque também passei por um processo profundo de evolução (ou retrocesso) nas duas décadas. Talvez, mais irreversível do que a do campinho, da ponte e da venda.

domingo, 26 de setembro de 2010

A recíproca e não é verdadeira

Que o mundo está cada vez mais caótico ninguém dúvida. Dentre todas as loucuras que competem para este resultado, a relação entre nós, seres humanos, cada vez mais desconfiados e desconhecidos uns dos outros, é a que mais me chama a atenção. Veja você, caro leitor, que na tarde de ontem, frustrei um balconista ao entregar uma nota de cinqüenta reais. Colocando o dinheiro contra a luz, em um processo padrão para verificar a legitimidade da cédula, sentiu-se seguro. Chateou-se mesmo ao entregar o troco, quando fiz o mesmo processo, conferindo a veracidade das notas de dez e cinco reais que me entregou. Deve ter achado que eu duvidei de sua honestidade. Mas e a minha? – Será que ele não duvidou primeiro?

Não é só neste caso que não admitimos recíproca. Lembre-se do último mendigo que te pediu dinheiro. Ele deve ter mentido pra você, dizendo que precisava comer, ajudar um filho, pegar um ônibus. Fatalmente, você desconfiou da história e, provavelmente, não deu o trocado. E para tanto, inventou alguma desculpa, como “estou sem dinheiro”, tão mentirosa quanto a do mendigo, que talvez usasse as moedas para comprar uma dose de birita. Você pode fazer um mal juízo do, literalmente, pobre homem. Mas ele que ouse fazer o mesmo! Quem ele pensa que é?

Mais do que casos isolados, esta nossa vitimização em conferências de cédulas e em desculpas para não realizar filantropia, revela nosso comportamento torpe nas pequenas situações. Pode ser na fila do caixa do supermercado, quando vemos o casal se dividir e ficar em duas filas, esperando aquela que andar mais rápido. Você, solitário, ficará pê da vida. Mas se a sua esposa estiver por lá, qualquer dia, vai utilizar do mesmo expediente. E ainda vai dar um sorriso triunfante quando os códigos de barra das suas compras passarem pelas mãos da atendente.

Infelizmente, somos assim. E vale até para as coisas do coração. Antes de acabar com o casamento de uma década, experimentaremos outras pessoas e, assim que uma nova relação estiver garantida, fazemos a cena para a separação. Isto vale também para os enlaces já encerrados e as ligações no meio da madrugada para certificar se já não tem ninguém esquentando o outro lado da cama. Ligação esta que perderá todo o sentido assim que você arrumar um novo alguém.

Só não sei como dentro da coleção de igrejas, seitas e filosofias de vida que emergem toda semana, nenhuma adotou o “quem gosta da gente é a gente mesmo”. O “amai ao próximo como a ti mesmo” anda cada vez mais esquecido. E o “primeiro, as damas”, também. Acho que até aquela célebre frase dos filmes deve estar com os dias contados: “mulheres e crianças, primeiro”, uma ova!

Se fosse o balconista que me atendeu, também ficaria indignado com minha empáfia. Como ousa duvidar da nossa loja? Como ousa, Juliano Nery, duvidar de mim, funcionário identificado pelo crachá da empresa? – Se tivesse no lugar dele, também iria ficar chateado. No meu lugar, talvez fizesse o mesmo que fiz. Afinal de contas, tudo depende do referencial que se adota.

domingo, 22 de agosto de 2010

Pão de Alho

Talvez seja algum resquício provinciano advindo dos meus tempos de São Lourenço, mas fato é que tenho certa resistência com o novo. Não que eu seja avesso às mudanças ou não goste de experimentar. Pode ser uma mera timidez, uma clássica vergonha em dizer que desconhece algo ou alguém, no entanto, espero algumas coisas acontecerem para achar a “tal” novidade que era o máximo, cantada em verso e prosa pelo Gilberto Gil. E essa quase defensiva com o novo vale para muita coisa. Até mesmo para o pão de alho.

Explico: existe uma casa de caldos e sopas próxima ao apartamento onde moro em Juiz de Fora. E eu sou freguês de lá há vários anos, principalmente, nos dias frios, como fez aqui nesta semana. O dono é sempre muito simpático e os caldos são realmente muito bons. O garçom, no entanto, não segue a mesma linha. É sisudo e um pouco carrancudo e, invariavelmente, troveja a mesma sentença, após o pedido da bebida e do caldo escolhida. “Vai querer um pãozinho de alho?”

Quase que maquinalmente, respondia com o mesmo “não, muito obrigado” de praxe. Em sete anos que freqüento o local, não houve uma vez sequer que ele tenha se esquecido da pergunta e que não tenha ouvido a mesma resposta. Já havia se tornado uma questão maior do que a oferta de um produto, mas, sim, uma questão pessoal contra aquele mau humor.

Pois foi em um dia outonal deste ano, que o meu filho Gabriel, de seis anos, também freguês da casa, desde que desmamou, resolveu proferir uma de suas vontades. Quanto mais cresce, mais cheio de vontade fica. E ele disse, após escolher um feijão amigo, que queria o tal pão de alho oferecido pelo moço. Tentei demovê-lo da ideia, em vão. O menino é de opinião, para não dizer que é teimoso. Sem alternativa, mandei descer o tal pão de alho.

Vendo a tal iguaria sobre a mesa e o apetite do garoto, resolvi tirar uma lasca do pão, para acompanhar a minha refeição. Mastigo, mastigo, engulo e maravilha. Como não fazer a pergunta “por que não experimentei isso antes, meu Deus?” – Viva ao Gabriel e as suas sábias escolhas. No entanto, o que fico a pensar é que já devo ter perdido algumas centenas de “pães de alho” pelo caminho, por motivos bem pouco relevantes, como uma cara feia, uma vergonha de passar ridículo, tomar um passa-fora e assim por diante.

Temos ficar atentos às novidades que passam por nossa vida. Não devemos cair em todas elas, logicamente. Mas temos que ter o mínimo de capacidade de experimentar, de ousar, de pagar para ver. Não dá para repetir sempre a mesma dose, a mesma receita, a mesma roupa. É necessária uma boa pitada de coragem e seguir rumo ao desconhecido, ao que ainda não está claro diante dos nossos olhos.

Por aqui, já começo a dar os primeiros passos. Ontem mesmo fui na velha loja de caldos e pedi a novidade, pão de alho. O Gabriel nem estava comigo. Quando olhei para mesa dei um sorriso com certo triunfo. O garçom de rosto sisudo não entendeu nada e deve ter blasfemado alguma reclamação. Quem sabe ele anda precisando encontrar alguns pães de alho vida afora.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Pares de meia e caixas de lenço nunca mais

Espremido no calendário proposto pelo sistema de comércio está ali o Dia dos Pais. Não é fundamental como o Dia das Mães e nem apaixonante, como o Dia dos Namorados. Ninguém vai gastar uma quantia exorbitante, como no Natal, com aquele que pouco aparece, já que passa todo o período em que o sol dá as caras, metido em um lugar chamado trabalho. Ah, e não vamos esquecer que em outubro tem o Dia das Crianças, no qual algum dinheiro terá que ser desembolsado. É melhor pensar rápido em uma lembrancinha... Que tal, uns pares de meia? – Esse eu já dei no ano passado, uma pena! – Mas, ainda posso dar aquela caixa de lenço...

Esta cena, embora um pouco fantasiada é uma bela representação de muitos Dias dos Pais, que vivenciamos, principalmente, para quem já é filho na casa dos 20 ou 30 anos. Famílias que tinham como arrimo a renda única do pai, aqueles que muitas vezes não tinham tempo para dar atenção aos filhos e à esposa e que, por vezes, passavam batidos dentro de casa, escondidos atrás dos noticiários de televisão, das páginas do jornal ou dos copos de cerveja no bar. Supriam as necessidades do lar, o que mais queriam? “Esse pessoal daqui de casa não me deixa em paz.”

O panorama mudou, as mulheres se emanciparam e as relações familiares ganharam uma nova dinâmica, que passou a dar mais incumbências aos pais. Até o avanço da supracitada geração que hoje passa dos 20 e 30 entendem a paternidade de outra forma. E com isso, as relações pais e filhos ganharam novos ares, tornando-se mais importantes. Importantes ao ponto de incutir na cabeça dos filhos algo além de um papel secundário. E daí, passaram a merecer mais do que pares de meia e caixas de lenço no segundo domingo de agosto.

No entanto, o carnê com prestações mais altas por um bom presente é sinônimo de responsabilidades que os pais desta geração, que eu carinhosamente chamo de geração “gelol”, “já que não basta ser pai, tem que participar”, tem de assumir. Não só de levar à escola, mas de olhar os progressos da criança nas aulas. De vestir e dar banho. De se divertir e educar. Tarefas que antes eram relegadas somente à mãe, passam a ser divididas agora.

Quem ganha com isso são os filhos. Se a santa família já não mantém sua unidade monolítica intacta, com as separações cada vez mais freqüentes dos casais, há um cuidado cada vez maior para que os filhos sejam resguardados de qualquer ônus desta decisão. A guarda compartilhada é uma boa mostra disso, concedendo direitos similares aos pais e às mães.

Se os pais estão se mexendo por mudanças que melhorem sua relação familiar com os filhos, repense no que vai dar para o seu pai este ano. Pense alto, em coisa fina. E mais: não o esqueça sentado na sua poltrona favorita assistindo a um enfadonho jogo do Campeonato Brasileiro. Leve-o para dar uma volta, ouça o que ele tem a dizer. Seja paternalista com o seu pai.